14 de fevereiro de 2011

Uivo



O que eu escrevo é como o vento.
Como um beijo descompromissado de fim de noite
Ou o olhar malicioso de uma desconhecida.


É o carinho fugaz de um pôr do sol.
Ou a beleza dançarina da tempestade.
É algo que vem sem avisar
E se vai sem ninguém reparar.

Brota no papel feito grama na calçada
E não serve para ser recitado.
Pouco provávelmente será lembrado.
Como folha que cai
 Ou pedra que rola.


Mas para mim
É pão,
Vinho
E alma.
É um vôo rasante por uma terra desconhecida.
É o grito de vida de um recém nascido.
Estado de graça
Uivo!


(Wálisson Menezes)

31 de dezembro de 2010



"De jeito maneira
Não quero dinheiro
Quero amor sincero
Isto é que eu espero
Grito ao mundo inteiro
Não quero dinheiro
Eu só quero amar"


É oque desejo a todos nós em 2011!
Salve!

15 de dezembro de 2010

Bela diz:

         "Gosto mais do cara da fábrica, você sabe bem disso...
         Mas me permiti gostar também daquele cara que pula muros e invade colégios, como quem assume a loucura de se deixar levar pelo momento e deixar que, pelo menos por um instante, as mascaras caiam. Se mostra sensível e diferente de uma maioria morta e de um mundo sem saída. 
      Ainda sim, prefiro o cara que busca ver no sol uma fonte de iluminação e convive com o paradoxo de se deixar cegar por essa luz, apenas por saber que a luz que pode cegá-lo...
          LIBERTA!"

7 de dezembro de 2010

Iluminação


Que deus me traga uma doença incurável!
Para que cada dia seja novamente único,
Como na infância.
Para que cada momento seja um novo diamante
De prazeres e descobertas
Como outrora foi.

E o doutor, sentado em sua cadeira confortável
Abraçado por paredes brancas, cobertas de diplomas,
Distraído e indiferente,
Me olharia por cima de seus óculos,
E exercitando sua fria piedade profissional, diria:
“você está condenado”,
“Sofres de uma rara doença que te roubará a vida em três meses”.
E me receitaria seus medicamentos e internação imediata.

Mas excitado como quem foge da prisão
Eu sairia de sua sala contente e frustrado,
Como quem conquista um emprego do qual nunca sonhou,
Mas que agora já não parece uma má idéia.
Eu viajaria pela minha cidade,
Depois pelas cidades vizinhas
Conheceria seu povo, sua história, sua cultura.
E então descobriria meu país.
O interior de cada estado,
Bem distante de suas capitais.
Onde a música ainda dita o ritmo,
E os segundos são contados a enxadadas.

E eu beberia da água dos córregos a beira da estrada
E tomaria banho de rio, cachoeira, riacho e lagoa.
E quando olhasse para o sol perceberia
Que já não preciso das festas, shows e bebidas de outrora.
Pois agora os pássaros são meus irmãos,
As folhas das árvores são meus poemas
E a água da chuva, é agora o meu vinho.

E quando olhasse para a lua, deitado sobre a grama,
Banhado por estrelas,
Ouvindo suas fábulas e contos esquecidos,
Girando ao meu redor feito vaga-lumes,
Entenderia finalmente, que estou vivo!

( Wálisson Menezes )

23 de novembro de 2010

Sê Forte

    Sê forte. Não dês língua a toda idéia,
    Nem forma ao pensamento descabido;
    Sê afável, mas sem vulgaridade.
    Os amigos que tens por verdadeiros,
    Agarra-os em tua alma em fios de aço;
    Mas não procures distração ou festa
    Com qualquer camarada sem critério.
    Evita entrar em brigas; mas se entrares,
    Agüenta firme, a fim de que outros te temam.

    Presta a todos ouvido, mas a poucos
    A palavra: ouve a todo a censura,
    Mas reserva o teu próprio julgamento.
    Nem sejas usurário nem pedinte:
    Emprestando há o perigo de perderes
    O dinheiro e o amigo; e se o pedires,
    Esquecerás as normas da poupança.

    Sobretudo sê fiel e verdadeiro
    Contigo mesmo; como a noite é ao dia,
    Seguir-se-á que a ninguém serás falso.

   ( William Shakespeare )

19 de outubro de 2010

Eu Quero Ser Sempre Aquilo Com Quem Me Simpatizo





Eu quero ser sempre aquilo com quem simpatizo,

Eu torno-me sempre, mais tarde ou mais cedo,

Aquilo com quem simpatizo, seja uma pedra ou uma ânsia,

Seja uma flor ou uma idéia abstrata,

Seja uma multidão ou um modo de compreender Deus.

E eu simpatizo com tudo, vivo de tudo em tudo.

São-me simpáticos os homens superiores porque são superiores,

E são-me simpáticos os homens inferiores porque são superiores também,

Porque ser inferior é diferente de ser superior,

E por isso é uma superioridade a certos momentos de visão.

Simpatizo com alguns homens pelas suas qualidades de caráter,

E simpatizo com outros pela sua falta dessas qualidades,

E com outros ainda simpatizo por simpatizar com eles,

E há momentos absolutamente orgânicos em que esses são todos os homens.

Sim, como sou rei
como sou rei absoluto na minha simpatia,

Basta que ela exista para que tenha razão de ser.


                                                                            (Fernando Pessoa)

14 de outubro de 2010

O Monstro

Fui laçado e estou entregue
Devorado e aprisionado pelo monstro que criei
Fui vencido por quem eu sonhava ser
Agora não sou nada
E continuo não sendo ninguém

O monstro é bonito e interessante
Tem um jeito de andar e olhar
Que faz os outros quererem segui-lo
Fala sobre qualquer assunto como se fosse especialista
Conta mentiras em que todos querem acreditar

Ele não tem medo algum
Se veste bem
Sem ser invejado pelos que não tem o que vestir
Tem na boca sempre guardado um sorriso largo,
Que encanta os que não tem motivos pra sorrir

É feito de tudo o que encontrei de melhor no mundo:
Paixão, poesia
Loucura, sabedoria
Dei a ele a vida
Esperando que ele me desse o que sempre sonhei

Mas falhei
Agora todos o amam
E não mais me conhecem
Agora eu também estou apaixonado por ele
E odeio a mim mesmo.



( Wálisson Menezes )

6 de setembro de 2010

Crônicas de Fábrica





       Deitei sob minha árvore favorita, tirei as botas, coloquei as meias furadas no sol e fechei os olhos. A maldição de trabalhar naquele lugar é que mesmo descansando, depois do almoço, você sonha com aquilo. Dessa vez não foi diferente.
       No sonho, o suor me cegava, incomodava, estressava. Corria de um lado para o outro na linha de produção, parafusando, desparafusando, encaixando peças, parafusando novamente...
Olhava para os lados e todos estavam na mesma situação que eu. A linha rodava a todo vapor, impiedosa. Nessas horas você não consegue pensar em nada diferente de parafusar, desparafusar, encaixar e parafusar novamente. O barulho era ensurdecedor, como sempre. Trombei no meu melhor amigo naquele lugar, ele me mandou tomar no cu. Olhei para a minha máquina parafusadeira, olhei para os carros incompletos sendo levados pela linha de produção, olhei em volta. Caos. Correria. Sentimento de inferioridade em meio a tanto aço, tanta tecnologia, tantos homens maiores, mais fortes e mais velhos que eu, sofrendo da mesma forma. Olhei para a sala do líder. Lá estava ele sentado, absorvido pelo computador, tranqüilo, com seu ar condicionado, sua roupa limpa e fresca.
       Eu estava mesmo sonhando? Ou meu horário de almoço já tinha terminado e eu estava de volta a linha sem me dar conta? Acredite, essa dúvida me ocorria com mais freqüência do que se pode imaginar.
       Mas o que mais  ecoava em minha mente era: O que eu estava fazendo ali?
Com aquele sol maravilhosamente dourado brilhando lá fora, que eu só consegui ver olhando para as telhas transparentes do teto do galpão. Me matando a cada segundo, atingindo o meu esforço físico máximo a cada minuto. Minha vida sendo levada. Minha juventude sendo comprada por atacado. O que eu estava fazendo ali?
       Não pensei mais: Empunhei a parafusadeira, subi no capô do carro mais próximo e bati com toda a força que ainda me restava no pára-brisa, que rachou de fora a fora. Desferi o segundo golpe, fragmentando ainda mais o vidro. No terceiro, cortei a mão mas consegui abrir um pequeno buraco. No mesmo instante a linha parou, os homens também pararam, olhando para mim. Alguns horrorizados, outros curiosos, outros sorrindo. Alguns lá no fundo iniciaram uma tímida salva de palmas. Pela primeira vez no dia, a linha estava em silêncio.
       Acordei com o celular despertando. Era hora de voltar para a linha de produção.
Ainda pensei enquanto calçava as botas: Eu havia realmente acordado? Ou era apenas a continuação do pesadelo?


( Wálisson Menezes )


18 de agosto de 2010

Orações Imorais



       Brincando sob os lençóis da madrugada, ela e eu, éramos loucos. Como gatos, pulamos o muro e invadimos sua antiga escola. Encontramos labirintos de perfumes, climas e histórias, passeando entre os túmulos de nossos antigos sonhos.
       De dentro de seus buracos de rato, os anjos espiavam, fascinados. Brincavam entre si; berrando  orações imorais e velhos feitiços. E a cada momento rodeávamos sorrindo um ao outro, como quem encontra algo fascinante e desconhecido.
       As mãos dadas, nos ensinamos a dançar a dança das arvores e das flores, que nos entorpecia e incendiava, iluminando o pátio escuro e esquecido pelo sono da cidade deserta.
       Lá vencemos a nós mesmos, deixamos cair nossas máscaras, esquecemos nossos medos. Fomos deuses rebeldes, que em meio as sombras, dispararam maldições contra a mesquinharia humana.

Bluebird

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Blue Bird - Charles Bukowski




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