6 de setembro de 2010

Crônicas de Fábrica





       Deitei sob minha árvore favorita, tirei as botas, coloquei as meias furadas no sol e fechei os olhos. A maldição de trabalhar naquele lugar é que mesmo descansando, depois do almoço, você sonha com aquilo. Dessa vez não foi diferente.
       No sonho, o suor me cegava, incomodava, estressava. Corria de um lado para o outro na linha de produção, parafusando, desparafusando, encaixando peças, parafusando novamente...
Olhava para os lados e todos estavam na mesma situação que eu. A linha rodava a todo vapor, impiedosa. Nessas horas você não consegue pensar em nada diferente de parafusar, desparafusar, encaixar e parafusar novamente. O barulho era ensurdecedor, como sempre. Trombei no meu melhor amigo naquele lugar, ele me mandou tomar no cu. Olhei para a minha máquina parafusadeira, olhei para os carros incompletos sendo levados pela linha de produção, olhei em volta. Caos. Correria. Sentimento de inferioridade em meio a tanto aço, tanta tecnologia, tantos homens maiores, mais fortes e mais velhos que eu, sofrendo da mesma forma. Olhei para a sala do líder. Lá estava ele sentado, absorvido pelo computador, tranqüilo, com seu ar condicionado, sua roupa limpa e fresca.
       Eu estava mesmo sonhando? Ou meu horário de almoço já tinha terminado e eu estava de volta a linha sem me dar conta? Acredite, essa dúvida me ocorria com mais freqüência do que se pode imaginar.
       Mas o que mais  ecoava em minha mente era: O que eu estava fazendo ali?
Com aquele sol maravilhosamente dourado brilhando lá fora, que eu só consegui ver olhando para as telhas transparentes do teto do galpão. Me matando a cada segundo, atingindo o meu esforço físico máximo a cada minuto. Minha vida sendo levada. Minha juventude sendo comprada por atacado. O que eu estava fazendo ali?
       Não pensei mais: Empunhei a parafusadeira, subi no capô do carro mais próximo e bati com toda a força que ainda me restava no pára-brisa, que rachou de fora a fora. Desferi o segundo golpe, fragmentando ainda mais o vidro. No terceiro, cortei a mão mas consegui abrir um pequeno buraco. No mesmo instante a linha parou, os homens também pararam, olhando para mim. Alguns horrorizados, outros curiosos, outros sorrindo. Alguns lá no fundo iniciaram uma tímida salva de palmas. Pela primeira vez no dia, a linha estava em silêncio.
       Acordei com o celular despertando. Era hora de voltar para a linha de produção.
Ainda pensei enquanto calçava as botas: Eu havia realmente acordado? Ou era apenas a continuação do pesadelo?


( Wálisson Menezes )