24 de novembro de 2008

Sem Saída


Desejei uma bela coroa de rosas
Para combinar com minha roupa nova.
Mas o vento já havia roubado as pétalas
E a mim só restaram os espinhos.

Lancei o dedo nas estradas
Heroicamente a procura de mim mesmo.
Mas não pude ir tão longe,
Minhas lágrimas assustaram os motoristas.

Corri pra casa com medo,
Ansioso por um lar que todos diziam existir.
Mas nada havia lá, nem mesmo um buraco
Que pudesse me tragar de volta a terra.

Sem abrigo e sem amigos,
Procurei o bar mais sujo da cidade.
Encontrei alguns anjos bebendo e jogando cartas.
Protestavam ébrios sobre como Deus havia se tornado um grande cretino.

Afundei ainda mais a cabeça na mesa
E descobri que os anjos também fedem e dão escândalo.

Saí tentando acompanhar a chuva,
Talvez ela pudesse me lavar a alma.
Mas os pingos lavavam primeiro os prédios
E já chegavam sujos até mim.

Só encontrei abrigo no sorriso podre da sarjeta,
Deitado sobre um jornal de ontem
Que gritava em meus ouvidos
Que outro recém-nascido havia sido encontrado,
Morto no lixo com sinais de estupro.


(Wálisson Menezes)

A Madrugada


Desperto na madrugada
Depois de mais um dia de trabalho.
Lá fora a noite grita,
Canta e me chama.
Dou uma olhada nas estrelas
E sorrio em resposta.

A vizinhança está quieta,
Os cães - eternos amantes da lua - dormem.
O universo continua sua velha explosão cósmica
E eu me sinto perdido e solitário
Ouvindo seus segredos.

A humanidade só é tão burra e arrogante
Porque dorme no único momento
Em que poderia ter uma idéia de sua insignificância:
A madrugada.


( Wálisson Menezes )

Asfalto Molhado


     Os pingos tocavam o chão depois de dois meses de estiagem. Era quase dez horas de uma manhã de janeiro e, como eu não tinha mais nada a fazer em meu trabalho, estava escorado numa das velhas geladeiras que me faziam companhia na oficina. Trabalhava numa oficina de reforma de geladeiras; meu ofício consistia em ajudar na reforma e atender os fregueses, quando o meu patrão estivesse fora.
     Braços cruzados, olhar perdido nos carros que passavam pela avenida; saboreava o cheiro de asfalto molhado que me lembrava a infância. As raras manhãs de domingo, em que eu ficava na janela observando as plantas se contorcendo sob a chuva no quintal e sentindo o cheiro de terra molhada que se espalhava pela casa. Fazia sentido: a inocência da infância e a pureza da terra, as descobertas da adolescência e a sujeira do asfalto.
     Estava nessa, quando fui tragado de volta à realidade por um vulto que passou bem em frente aos meus olhos. Ainda pisquei como se fosse apenas alguma sujeira na visão. Olhei pela calçada: um rapaz de mais ou menos vinte anos, pele morena, cabelo encaracolado e olhos verdes. Estava encharcado, sem camisa e segurava uma bola vermelha de plástico.          Ele se aproximou e parou bem na minha frente. Olhei os pingos de chuva que escorriam pelo seu rosto e fiquei impressionado pela inocência que seu olhar expressava. Uma pureza que só encontramos nos olhos das crianças e de alguns animais.     Fiquei sem ação, esperando por alguma palavra, algum gesto, qualquer coisa que me tirasse daquele torpor.
Estava tão perto que pude sentir o calor de sua respiração e ver os seus olhos descerem, pousarem na bola e voltarem para os meus. Percebi que ele ia dizer algo:
     - Ei, vamos jogar bola? - Perguntou-me, com um sorriso que eu nunca vou esquecer.
Senti-me estranho, atravessado pelo mundo, sem respiração e mais uma vez paralisado, enquanto ele me olhava com aqueles olhos grandes e expressivos, esperando minha resposta. Pensava mil coisas ao mesmo tempo, mas não conseguia formar uma simples frase.
     - Mas está chovendo - resmunguei.
     Foi a única coisa que consegui dizer. Mas minha vontade era de parar o trânsito, puxa-lo pela mão e brincar com ele o dia inteiro, ou até que alguém nos tirasse da rua.
     Diante de minha resposta burra ele não se mostrou decepcionado, apenas continuou sorrindo e se foi, correndo na chuva com sua bola vermelha. Logo atrás dele veio um senhor andando depressa, que aparentava ser seu pai.
     - Desculpe, ele tem problema - disse, enquanto passava por mim.
     Problema?! Problema temos nós, do alto de nossa arrogância, massacrando sonhos e vontades, apenas para manter a pose de animal racional. Não temos nada por achar que temos tudo, somos patéticos. Senti meus pêlos se arrepiarem e meu coração acelerar, como se só agora meu corpo correspondesse ao que havia se passado em minha alma. Tudo isto durou menos de um minuto, mas me deixou embriagado pelo resto do dia, pensando no maravilhoso contato que havia travado com aquele rapaz. Eu nunca mais o vi, e tenho certeza de que nunca mais verei. Nunca tinha me sentido assim tão perto de Deus.


(Walisson Menezes)